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Crônica de Janete Garnone (re)visita Mito da Caverna, de Platão


As sombras da tela

Tem gente que acorda e, antes mesmo de abrir a janela, abre o celular. O mundo chega primeiro pela tela: notícia resumida, opinião mastigada, vídeo de quinze segundos ensinando a viver, amar, votar, emagrecer, enriquecer e até sofrer do jeito certo. A luz azul ilumina o rosto como antigamente o fogo iluminava as paredes da caverna de Platão.

No mito, os homens viviam presos desde sempre, olhando sombras projetadas na pedra.

Achavam que aquilo era a realidade inteira porque nunca tinham visto outra coisa. Um deles consegue sair. A princípio, a luz dói. O sol incomoda. A verdade cega antes de clarear. Mas, aos poucos, ele entende que as sombras eram apenas reflexos pobres da vida real.

Difícil não pensar no nosso tempo.

Hoje, as cavernas não têm correntes de ferro. Têm algoritmos. Cada um recebe sombras personalizadas: notícias que confirmam o que já acredita, vídeos escolhidos para prender atenção, frases prontas que dispensam reflexão. E assim seguimos, convencidos de que enxergamos o mundo, quando muitas vezes enxergamos apenas versões editadas dele.

Há quem passe anos sem conversar com alguém que pense diferente. Há quem conheça mais filtros do que vizinhos. A realidade virou um corredor de espelhos onde cada um procura apenas o próprio reflexo.

E sair da caverna continua doloroso.

Porque questionar exige coragem. Ler além da manchete dá trabalho. Ouvir o outro sem transformá-lo em inimigo exige maturidade rara. É mais confortável ficar sentado diante das sombras digitais, repetindo certezas emprestadas, do que admitir que talvez não saibamos tanto assim.

Platão dizia que, quando o homem que saiu da caverna voltava para libertar os outros, era recebido com desprezo. Riam dele. Chamavam-no de louco. Dois milênios depois, pouca coisa mudou. Quem desacelera no meio da pressa coletiva parece estranho. Quem pensa antes de compartilhar parece antiquado. Quem duvida do espetáculo incomoda.

Talvez porque a verdade nunca tenha sido tão concorrida.

Vivemos cercados de imagens, mas com pouca visão. Cercados de vozes, mas com escuta rasa. Nunca houve tanta informação disponível e, paradoxalmente, tanta dificuldade em distinguir claridade de iluminação artificial.

No fim, o mito da caverna continua atual porque a grande pergunta permanece a mesma: “estamos realmente vendo o mundo — ou apenas assistindo às sombras que projetaram para nós?”

JANETE GARNONE é pedagoga, psicanalista, licencianda em Filosofia, coralista e cronista. Apaixonada pela subjetividade humana, transforma reflexões cotidianas em palavras sensíveis e intencionais


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