
Banner oficial do filme ‘Odisseia’, de Christopher Nolan | Divulgação
SÍLVIO LUIZ VIEIRA
Odisseia é a aventura de voltar para casa. Mas antes de chegar ao lar, Odisseia é, principalmente, a aventura de estar em lugares. Um estar sem permanecer. Um estar sem pertencer. Um estar de passagem.
Odisseia é sobre o tempo …
Quando o tempo da passagem se alonga … 7 anos, a tentativa da ninfa Calipso de transformar o viajante em morador fracassa. Odisseu, homem inventivo, transforma o corpo em ferramenta, constrói com suas próprias mãos o barco para transportar o seu coração de volta para seu reino.
Ítaca pertence a Odisseu, assim como ele pertence a Ítaca. E assim embarcamos no retorno mais conhecido e extraordinário da Mitologia Ocidental.
Sobre o Odisseu de Nolan – um Odisseu perturbador para mim. Contemporâneo demais. Um verdadeiro Oppenheimer do mundo Antigo em uma crise de consciência por ter criado o Cavalo de Tróia e oferecido a artimanha, do “presente de grego” aos inimigos – e assim se tornado o ‘Senhor da Morte’ dos troianos.
Do filme, ficaram duas lições em mim. Primeira: preciso, sim, assistir outras vezes aceitando as escolhas do cineasta.
Elogios ao filme, de minha parte, são muitos e desnecessários. Alguns dos elogios nasceram inicialmente como críticas: Exemplo: ansioso que sou, desejando ver Odisseu aventurar-se. A cena longa dos pretendentes à mão da rainha Penélope, se banqueteando dos cordeiros e dos vinhos à mesa do rei ausente, me incomodou. Quando fui externar a minha crítica, calei-me diante do mérito do diretor em despertar em mim, com sua demora, a angústia diante de tantos excessos, incendiar minha ira perante a presença de tantos roedores, usurpadores, oportunistas na casa real.
Segunda lição: onde eu estava quando estava no cinema?
Pergunto pois não vi Agamenon ser assassinado e o foi. Confundi Agamenon com Aquiles.
Resposta fácil. Estava na Odisseia escrita por Homero. Cantada para mim por mim mesmo, pelo leitor que sou. Repleta de minhas cores, paisagens e personagens reais de minha própria imaginação na aventura e desventuras de viver..
Eu estava imerso em tantas perguntas que faço a Odisseu espelho de mim mesmo, quando penso na obra.
Fica aqui, leitor, a minha pergunta sem resposta: o que diria Homero a nós ao assistir a Odisséia de Christopher Nolan e ao ler minha crônica?
SÍLVIO LUIZ VIEIRA é professor de História