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Cristóvão Corrêia analisa intertextualidades em música de Chico Buarque


Chico e a gênese

de ‘Fado Tropital’

Teço aqui um breve comentário sobre a genialidade de uma das composições de Chico Buarque e de como ela dialoga com ‘Raízes do Brasil’ e com poemas de Ruy Guerra.

‘Fado Tropical’, de Chico Buarque, composta em 1973 em parceria com Ruy Guerra para a peça ‘Calabar’ , nos traz riquíssimas informações entre as histórias de Brasil e Portugal.

Chico é filho do historiador e sociólogo Sérgio Buarque de Holanda. Este ficou mundialmente conhecido e teve seu primeiro livro (‘Raízes do Brasil’) traduzido em diversas línguas, e em que Sérgio Buarque revela o perfil psicológico do povo brasileiro, a partir de pesquisas do perfil psicológico do povo português e, consequentemente, de toda a miscigenação de nosso povo. 

Dito isso, concluo que Chico Buarque de Holanda teve uma grande fonte onde beber sobre a colonização brasileira e as diversas fases que se desenrolaram até a ditadura militar a partir de 1964 – que estava em vigor em 1973, quando da composição de ‘Fado Tropical’.

O título da música já sugere a mistura entre Portugal e Brasil. Fado: ritmo português; tropical: clima brasileiro:

“oh musa do meu fado

Oh minha mãe gentil

te deixo consternado no primeiro abril

Mas não sê tão ingrata, não esquece quem te 

E numa densa mata se perdeu e se encontrou”

Por toda a música se vêem trocadilhos entre coisas brasileiras e aspectos portugueses a se misturarem. Nesta primeira estrofe, haja destaque para o “primeiro abril”. Data expressiva. Tanto foi em 1801, quando lançado o alvará de liberdade de indústria e manufatura, passo crucial para a autonomia, que enfraqueceu a dependência brasileira de Portugal; quanto do golpe militar de primeiro de abril de 1964, que posteriormente, por ser o dia da mentira, foi mudado como sendo em 31 de março.

Os versos que revelam “quem te amou e numa densa mata se perdeu e se encontrou”, e resumem uma imensa história da formação do povo brasileiro. Também fazem menção irônica da separação “se perdeu” e da semelhança da crise social do então período entre Portugal e Brasil – “se encontrou”.

Nos versos declamados por Rui Guerra após o (primeiro) refrão: 

“Sabe, no fundo eu sou um sentimental

Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo (além da sífilis, é claro)

Mesmo quando minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar

Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora”

E o poema, assim como o soneto, também recitado por Rui Guerra após o (segundo refrão), demonstram um pouco do sentimentalismo, do lirismo e das contradições dos portugueses, deixados de herança aos brasileiros.

E a grande sacada do refrão:

“Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal

Ainda vai tornar-se um imenso Portugal”

(Ainda vai tornar-se um império colonial)

Portugal vivia um período sangrento com forte repressão à cultura e à arte, tal qual acontecia no Brasil. Por isso a irônica comparação do Brasil “sendo um imenso Portugal”, e fazendo referências ao período colonial, o Brasil que jamais deixou de ser colônia, ora portuguesa, ora de outros tantos países.


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