A música ‘De Mais Ninguém’, de Marisa Monte e Arnaldo Antunes é um ótimo exemplo de intertextualidade se comparada ao poema ‘Autopsicografia’, de Fernando Pessoa.
No poema, o trovador português retrata a dor como um sentimento único e inexpressível, quando diz que “o poeta é um fingidor”, que “finge tão completamente, que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente”. Em síntese: é impossível externalizar com exatidão o sentimento. Apenas quem sente sabe o que sentiu.
E Pessoa ainda vai adiante: “E os que leem o que escreve/na dor lida sentem bem/não as duas que ele teve/mas só as que eles não têm”. Nestes versos, o autor afirma que os leitores (ou ouvintes) não podem sentir a dor expressada pelo poeta, tampouco aquela outra dor que o artista de fato sentiu.
Não obstante, a canção ‘De mais ninguém’ traz essa mesma mensagem de que “a dor é de quem tem”; “é minha só, de mais ninguém”. Nestes versos da canção, se pode notar a subjetividade do sentimento, a natureza qualitativa, estritamente pessoal daquilo que se experimenta no próprio íntimo, que não há como externalizar com qualquer espécie de signos da comunicação humana. Por isso, a dor cantada em ‘De Mais Ninguém’ não pode ser de mais ninguém, senão de quem a viveu, pois o sentimento é único e intransferível.
Quem quiser conhecer o poema ‘Autopsicografia’ e a canção ‘De Mais Ninguém’ na voz deste colunista, está convidado a assistir os vídeos abaixo:
CRISTÓVÃO CORRÊIA é servidor público, professor de Redação e Literatura em cursinho pré-vestibular social, poeta e escritor. É autor de ‘Sinais de um Sonho’ (veja no site sante.pub)