
Quem pintou minha calçada de amarelo?
Em meio às roseiras e à grama-amendoim do pequeno canteiro do meu jardim, alguns galhos começaram a surgir. Não haviam sido plantados. Simplesmente apareceram.
Intrigada, acompanhei aquele movimento silencioso e logo descobri com satisfação sua identidade: eram mudas de ipê-amarelo.
Todos sabemos que existem ipês de muitas cores. Mas o amarelo sempre foi o meu preferido. Por isso, ao reconhecê-los, meu coração se encheu de alegria.
O ipê é uma árvore fascinante. Cresce em silêncio, dia após dia, despropositadamente e tampouco exige aplausos. Durante longas estações passa quase despercebido. De tronco esguio e desengonçado, galhos frágeis que pouco ou nada revelam da grandiosidade que carregam.
Enquanto os olhos apressados enxergam apenas uma árvore comum, ele se dedica ao invisível: aprofunda raízes, fortalece-se por dentro e prepara, pacientemente, a beleza que um dia oferecerá ao céu.
E eis que, quando tantas outras espécies se recolhem e a paisagem atravessa a estação fria, seca e improvável, ele desperta. Flor após flor, transforma-se em espetáculo. Por três ou quatro luas, suas copas douradas iluminam canteiros, avenidas e encostas, rompendo a monotonia da paisagem e anunciando que a vida continua florescendo, mesmo em tempos difíceis.
Talvez essa seja uma de suas maiores lições: persistir.
Diante das aflições cotidianas, pus-me a pensar que, se sou árvore e nasci para florescer, a paciência talvez seja apenas o intervalo necessário entre a semente e a florada.
Como escreveu Clarice Lispector: “Tenho que ter paciência para não me perder dentro de mim.”
A pressa, dizem, é inimiga da perfeição. Talvez possamos acrescentar que a paciência seja amiga dos frutos maduros. Ela se parece com a voz serena de uma mãe explicando ao filho que perder um gol faz parte do jogo e que novas oportunidades sempre virão.
Mas esperar exige coragem.
Quantas vezes um projeto cuidadosamente sonhado já possuía data marcada para florescer e, de repente, um jardineiro intempestivo surgiu com sua tesoura de poda, cortando o tronco rente ao solo?
Então resta o silêncio. Recomeçar. Esperar mais uma vez.
Esperança e certeza costumam caminhar de mãos dadas. Quando um obstáculo surge no caminho — como um poste no meio da calçada — o desafio não é separá-las, mas encontrar uma forma de fazê-las seguir juntas.
E foi então que, numa manhã de inverno, ao abrir o portão, encontrei o amarelo suspenso nos galhos e também espalhado pelo chão, formando um denso tapete dourado.
As pétalas que ainda resistiam nos galhos e aquelas já entregues ao vento contavam a mesma história: a de um processo lento, difícil e incerto. Mas contavam também a história de uma recompensa gloriosa que viria, bastando acreditar.
Foi nesse instante que compreendi.
O ipê não floresce porque encontrou condições perfeitas. Floresce porque, apesar das estações difíceis, continuou crescendo.
Todo sonho genuíno começa como uma semente. Todo objetivo autêntico precisa de tempo para criar raízes, fortalecer o tronco e preparar sua própria florada. E seu desenvolvimento dependerá, acima de tudo, da capacidade de persistir.
Quando chega o momento do brilho, pouco importa quantos invernos foram atravessados. Importa que a promessa floresceu.
E será celebrada em sua plenitude.
Porque alguém, em algum momento, pintou minha calçada de amarelo, para me lembrar que perseverar com determinação é uma forma de florescer legitimamente. E independentemente das circunstâncias , nada nem ninguém tirará o que é meu, intrinsecamente!
JANETE GARNONE é pedagoga, psicanalista, licencianda em Filosofia, coralista e cronista. Apaixonada pela subjetividade humana, transforma reflexões cotidianas em palavras sensíveis e intencionais
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