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A crônica de Renato Violardi: ‘O Bajulador e o Conselheiro’, sob Maquiavel


Na política, no trabalho e até no grupo da família, há sempre duas figuras que caminham de mãos dadas, como se fossem inseparáveis: o bajulador e o conselheiro. O problema — já alertava Maquiavel — é que, muitas vezes, eles são a mesma pessoa… só muda o tom de voz.

O bajulador é uma espécie de poeta sem talento, mas com muita dedicação. Ele enxerga genialidade onde há improviso, estratégia onde há sorte e liderança onde, no máximo, há insistência teimosa. Se o chefe tropeça, ele não vê um erro — vê uma “inovadora aproximação com o chão”. Se a decisão dá errado, a culpa nunca é da ideia, mas “do timing do universo”. É um artista da distorção, um escultor de elogios inflados.

Já o conselheiro… ah, o conselheiro! Esse se apresenta com ares de sabedoria, testa franzida e frases começando com “eu, se fosse você…”. Ele não elogia tanto — o que o torna ainda mais perigoso.

Porque parece crítico, ponderado, quase isento. Mas, no fundo, diz exatamente o que o poderoso quer ouvir, só que embrulhado em verniz intelectual.

Maquiavel, com sua costumeira falta de paciência para ingenuidades, foi direto ao ponto: um governante prudente deve fugir dos aduladores e escolher conselheiros que falem a verdade — mas apenas quando solicitados. O problema é que, na prática, ninguém quer ouvir a verdade… quer ouvir uma versão confortável dela.

E assim se forma o ecossistema perfeito: o líder que aprecia aplausos e os auxiliares que dominam a arte de aplaudir. Não há contradição, não há confronto, não há risco. Há apenas um teatro contínuo onde todos fingem acreditar na própria encenação.

O mais curioso é que o bajulador raramente se vê como tal. Ele acredita sinceramente que está sendo leal. E, de certo modo, está — não à verdade, nem ao interesse público, nem sequer ao próprio líder — mas à sua posição, ao seu espaço, ao seu pequeno feudo de influência.

O conselheiro, por sua vez, gosta de pensar que é estratégico. Que joga um jogo maior. Que, ao suavizar críticas e adaptar discursos, está “preservando a governabilidade”. No fundo, apenas evita desconfortos — principalmente os seus.

E o líder? Esse, cercado de aplausos e conselhos convenientes, passa a viver numa realidade paralela, onde tudo vai bem até o momento em que deixa de ir. E, quando finalmente percebe, já não há quem diga a verdade — porque os poucos que diziam foram sendo substituídos pelos que sabiam sorrir melhor.

Talvez o maior ensinamento de Maquiavel não seja desconfiar dos bajuladores, mas reconhecer que eles só prosperam onde há espaço para eles. Onde a vaidade abre a porta, a bajulação entra sem pedir licença — e dificilmente sai.

No fim das contas, entre o elogio fácil e o conselho conveniente, a verdade acaba sendo a primeira a pedir demissão. E, como sabemos, ela não costuma deixar substituto.

RENATO VIOLARDI é advogado, servidor da Câmara Municipal de Cabreúva e ex-secretário de Cultura e Turismo do município


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