
‘Espectro’ é igual a ‘amplitude’. Pense nisso
Quando se fala em autismo, muitas pessoas ainda imaginam sempre a mesma cena: uma criança pequena, isolada em um canto, babando, mordendo objetos e com deficiência intelectual severa. Essa imagem, repetida por anos em reportagens, filmes e conversas cotidianas, acabou se tornando para muitos a “cara” do autismo.
Mas o autismo não tem uma única face.
Autismo é espectro, e espectro significa justamente amplitude. Significa que existem múltiplas formas de perceber o mundo, de processar estímulos, de se comunicar e de se relacionar com as outras pessoas. Algumas pessoas autistas precisam de suporte intenso ao longo da vida. Outras vivem de maneira relativamente autônoma, trabalham, estudam, formam famílias — e muitas vezes passam anos sem sequer saber que estão no espectro.
Isso acontece porque nem todo autismo é visível.
Desde cedo, muitas pessoas autistas percebem que certos comportamentos provocam estranhamento. O olhar que demora a sustentar, a dificuldade em interpretar ironias, a sensibilidade intensa a sons, texturas ou luzes. Aos poucos, muitas aprendem a observar os outros com atenção quase científica: copiam gestos, ensaiam expressões faciais, treinam respostas para situações sociais e constroem verdadeiros roteiros para interações do dia a dia.
Esse processo é conhecido como mascaramento social.
Para quem observa de fora, pode parecer apenas timidez, excentricidade ou uma personalidade mais reservada. Para quem vive isso constantemente, muitas vezes é um esforço enorme para parecer “normal” em um mundo que valoriza profundamente a conformidade social.
Esse fenômeno é ainda mais frequente entre meninas e mulheres. Durante muito tempo, os critérios de diagnóstico foram baseados majoritariamente em estudos feitos com meninos, o que contribuiu para que muitos traços femininos do espectro passassem despercebidos. Meninas autistas frequentemente desenvolvem estratégias sofisticadas de imitação social, aprendendo a reproduzir padrões de comportamento esperados com uma precisão impressionante. Não por ausência de características do espectro, mas por excesso de adaptação.
Como consequência, o diagnóstico em mulheres costuma chegar mais tarde — às vezes apenas na vida adulta — e em proporções menores do que provavelmente existem na realidade.
Talvez por isso não seja raro que adultos autistas, ao compartilharem seu diagnóstico, escutem comentários aparentemente inocentes, mas profundamente reveladores: “mas você não parece autista” ou “você não é como meu filho, meu sobrinho ou meu neto que são autistas”. Como se existisse apenas uma forma legítima de ser autista. Como se o espectro tivesse um único rosto possível.
Enquanto isso, o debate público sobre autismo ainda se perde com frequência em explicações simplistas. De tempos em tempos ressurgem teorias que procuram culpados improváveis: vacinas, alimentos, telas, corantes ou estilos de criação. Narrativas que se espalham facilmente, principalmente nas redes sociais, mas que não encontram sustentação alguma na ciência.
Vacinas não causam autismo.
Comida não causa autismo.
O autismo não é resultado de algo que “deu errado”. Ele faz parte da diversidade neurológica humana.
Talvez, então, a pergunta mais interessante não seja apenas por que hoje falamos mais sobre autismo. Talvez a questão seja por que durante tanto tempo enxergamos apenas uma pequena parte desse espectro.
E há ainda uma provocação curiosa. Se o número de pessoas identificadas como autistas parece crescer a cada geração, estaríamos apenas melhorando nossa capacidade de reconhecer o que sempre esteve entre nós? Ou estaríamos diante de um fenômeno mais amplo?
À luz do Darwinismo, que entende a evolução como um processo contínuo de variação e adaptação, não seria absurdo imaginar que certas características hoje associadas ao espectro também façam parte da diversidade evolutiva da própria humanidade.
Talvez a pergunta não seja apenas por que existem autistas.
Talvez seja também o que a evolução ainda está tentando nos mostrar.
(*) ELIZA (LICKA) BIAZIN é formada em Recursos Humanos e cursa Psicanálise e Design Gráfico. Leitora apaixonada por fantasia e por investigação teórica, dedica-se à leitura de artigos científicos e aos estudos em Psicanálise.