Cidade Cultura Geral Literatura ParaTodos

Os pequenos gestos que conduzem a grandes conquistas, na crônica de Renato Violardi


Ainda há alguem remando

Em setembro de 1984, eu tinha 14 anos e um herói.

E, olhando para trás, percebo que talvez tenha sido uma das melhores escolhas que a vida poderia ter feito por mim.

Meu herói não era jogador de futebol, cantor ou ator. Não aparecia nas capas das revistas por causa de gols, discos ou filmes. Não buscava aplausos, fama ou multidões.

Meu herói havia escolhido uma estrada muito mais silenciosa — e infinitamente mais perigosa.

Seu nome era Amyr Klink.

Naquele mês, o Brasil acompanhava a notícia de que um homem havia atravessado sozinho o Oceano Atlântico, em um pequeno barco a remo.

Cem dias entre a África e o Brasil.

Cem dias de mar aberto, solidão, vento, ondas, medo, frio, cansaço e incerteza.

Para um menino de 14 anos, aquilo parecia uma história saída de um livro de aventuras.

Mas não era ficção.

Era um homem.

Um barco.

Um oceano.

E uma vontade aparentemente maior que o próprio oceano.

Desde então, Amyr Klink se tornou, para mim, muito mais do que o homem que atravessou o Atlântico a remo.

Talvez seja a pessoa mais próxima daquilo que consigo chamar de ‘herói’.

Não apenas pelo que fez, mas pela maneira como fez.

Porque existe uma diferença entre alguém que realiza uma grande façanha e alguém que, por aquilo que realiza, passa a nos ensinar alguma coisa sobre nós mesmos.

Amyr Klink me ensinou.

Eu não sabia, naquele momento, mas aquela travessia ficaria comigo por toda a vida.

Talvez porque, aos 14 anos, ainda olhamos para o mundo sem conhecer completamente o tamanho das nossas próprias limitações.

Ainda acreditamos que algumas coisas são possíveis simplesmente porque desejamos que sejam.

Depois, a vida vai nos ensinando o contrário.

Ou, pelo menos, tenta.

Ensina que há portas que não se abrem.

Que há planos que fracassam.

Que há pessoas que nos dizem para desistir.

Que há momentos em que o caminho parece longo demais.

E, principalmente, que existem sonhos que começam a parecer impossíveis justamente quando mais precisamos acreditar neles.

Foi talvez por isso que Amyr Klink me marcou tanto.

Porque ele não venceu o oceano em um único dia.

Foram cem dias.

Um depois do outro.

Remada depois de remada.

E talvez essa seja a parte de sua história que mais me impressiona.

A travessia não foi feita de um único gesto extraordinário.

Foi construída por milhares de gestos aparentemente pequenos.

Uma remada.

Depois outra.

E outra.

Durante cem dias.

É uma imagem poderosa para a vida.

Nós costumamos olhar para as grandes conquistas pelo momento em que elas acontecem.

Vemos a chegada.

A fotografia.

O aplauso.

O resultado.

Quase nunca vemos os dias anteriores.

Não vemos as noites mal dormidas.

As dúvidas.

O medo.

O cansaço.

As pequenas derrotas.

As vezes em que foi preciso começar novamente.

Não vemos as milhares de pequenas decisões que, somadas, conduziram alguém até aquele instante que parece grandioso.

Talvez realizar um sonho seja exatamente isso: continuar fazendo aquilo que precisa ser feito quando ainda não existe nenhuma garantia de que dará certo.

A vontade nos faz começar.

A persistência nos faz continuar.

E, entre uma coisa e outra, existe aquilo que ninguém consegue nos oferecer: a decisão pessoal de não abandonar o próprio sonho.

Com o tempo, descobri que persistência não é teimosia.

Persistir não significa não reconhecer os próprios erros.

Significa ter coragem para mudar a rota sem abandonar aquilo que realmente importa.

Às vezes, é preciso voltar.

Não para desistir.

Mas para encontrar novamente o ponto de onde podemos seguir.

Há uma frase de Amyr Klink que guardo comigo justamente por traduzir essa ideia com uma simplicidade extraordinária: “Voltar atrás, não pra desistir, mas pra começar de novo, recomeçar.”

Talvez seja uma das lições mais bonitas que ele me deixou.

Porque voltar atrás não é necessariamente uma derrota.

Às vezes, é sabedoria.

É reconhecer que o caminho escolhido não funcionou.

É corrigir o rumo.

É reunir forças.

É começar novamente.

Até porque ninguém atravessa um oceano seguindo exatamente a mesma direção durante cem dias.

O vento muda.

As ondas mudam.

As condições mudam.

E quem está no barco precisa ajustar o rumo.

Talvez os sonhos sejam assim também.

Às vezes precisamos mudar o caminho.

Às vezes precisamos aceitar que determinada estratégia não funcionou.

Às vezes precisamos parar, respirar e começar de novo.

O que não podemos confundir é mudar a rota com abandonar o destino.

Essa talvez seja uma das maiores lições que guardo daquela travessia.

A vida é cheia de oceanos.

Alguns são feitos de dificuldades financeiras.

Outros, de frustrações profissionais.

Há os oceanos das perdas, das injustiças, das decepções e das dúvidas.

E há aqueles que ninguém vê.

Os oceanos que cada pessoa atravessa silenciosamente.

Por isso, aprendi a desconfiar quando alguém diz que determinado sonho é impossível.

Não porque todo sonho possa necessariamente ser realizado.

Mas porque ninguém, olhando da margem, conhece completamente a força de quem está dentro do barco.

E ninguém conhece a quantidade de remadas que aquela pessoa está disposta a dar.

Talvez seja por isso que continuo admirando tanto Amyr Klink.

Porque ele nunca me pareceu um herói de estátua.

Não é o herói que aparece apenas no instante da vitória.

É o homem que permanece no barco quando ainda falta muito para chegar.

O herói não está apenas na chegada.

Está na solidão do caminho.

Na disciplina.

Na preparação.

Na capacidade de suportar o desconforto.

Na coragem de continuar quando ninguém está olhando.

E talvez seja justamente por isso que, tantos anos depois, ele continue sendo, para mim, a pessoa mais próxima daquilo que posso chamar de herói.

Aos 14 anos, eu admirava o homem que havia atravessado o Atlântico.

Hoje, admiro ainda mais o homem que teve coragem de entrar no oceano sabendo exatamente o tamanho dele.

Hoje, tantos anos depois, penso naquele garoto e naquela história com uma certa ternura.

Ele ainda está aqui.

Talvez um pouco escondido atrás das responsabilidades, das experiências, dos fracassos e das certezas que a idade traz.

Mas ainda está aqui.

E, de vez em quando, ele precisa ser lembrado de uma coisa simples: não importa o tamanho do oceano quando ainda há alguém disposto a remar.

Talvez essa seja a verdadeira importância da persistência.

Ela não promete que chegaremos ao destino.

Não garante que o sonho será realizado.

Não elimina o medo.

Ela apenas nos impede de desistir antes da hora.

E, muitas vezes, é justamente isso que separa o sonho da realidade.

Em setembro de 1984, eu vi um homem atravessar o Atlântico.

Naquele dia, talvez eu tenha entendido apenas a grandeza de uma aventura.

Hoje, compreendo que havia ali uma lição muito maior.

O barco era pequeno.

O oceano, imenso.

O horizonte, distante.

Mas havia uma pessoa remando.

E talvez seja assim que todos os grandes sonhos começam.

Não com a certeza de que chegaremos.

Mas com a coragem de dar a primeira remada.

E depois outra.

E mais outra.

Até que, um dia, olhando para trás, percebemos que aquilo que parecia impossível era apenas um oceano que ainda não havíamos atravessado.

E talvez seja essa a razão pela qual, aos 14 anos, escolhi aquele homem como meu herói.

Não porque ele me ensinou que todo oceano pode ser vencido.

Mas porque me ensinou algo ainda mais importante: que, enquanto houver alguém disposto a remar, a história ainda não terminou.

Ainda RENATO VIOLARDI é advogado, servidor da Câmara Municipal de Cabreúva e ex-secretário de Cultura e Turismo do município


Deixe sua opinião!