
As prisões da liberdade
Há dias em que a alma parece caminhar sobre pedras.
Foi assim quando me vi diante de uma decisão inevitável. A escolha estava em minhas mãos, mas, curiosamente, era justamente essa liberdade que me inquietava.
Escolher é um privilégio. Conviver com as consequências da escolha é outra história.
Eis o paradoxo: somos livres para decidir, mas não para negociar os efeitos daquilo que decidimos.
Toda escolha inaugura uma realidade da qual nos tornamos habitantes.
Toda ação gera uma reação, e é nesse movimento que os conflitos humanos encontram morada.
A infância pouco nos prepara para isso. Crescemos — e crescer não significa, necessariamente, amadurecer. Um dia descobrimos que a vida não nos oferece apenas o prazer de apreciar uma boa taça de vinho; ela também nos apresenta a autorresponsabilidade: eu faço, eu respondo.
Não obstante, é comum encontrarmos quem plante limões esperando colher maçãs. Tolice.
A vida raramente desmente a lei da semeadura.
Sob a ótica da Psicanálise, Freud nos lembra que grande parte das nossas escolhas é influenciada pelo inconsciente. Muitas vezes agimos sem compreender plenamente nossas motivações.
Ainda assim, o inconsciente pode explicar um comportamento, mas não elimina seus efeitos. O resultado permanece, e cabe a nós vivê-lo, elaborá-lo e, quando possível, transformá-lo.
Pense em um prato deixado na pia durante a noite. Pela manhã, as formigas fazem seu previsível desfile.
Seria absurdo responsabilizar outra pessoa pela consequência de uma decisão que foi minha.
E não, esta não é uma crônica sobre formigas.
É sobre a facilidade com que transferimos responsabilidades, atribuímos ao outro o peso das nossas escolhas ou nos escondemos atrás de justificativas.
Fazemos isso até que a infestação já não esteja apenas na pia, mas também dentro de nós.
O autoconhecimento é libertador justamente porque ilumina aquilo que antes permanecia oculto.
O processo analítico busca tornar consciente o inconsciente, permitindo que deixemos de ser reféns de narrativas de sofrimento para nos tornarmos participantes da própria história.
Autorresponsabilidade não é culpa. É reconhecer a própria participação naquilo que se vive.
Naquele dia, durante uma caminhada, amplas janelas se abriram dentro de mim. Tive uma epifania: percebi que estava procurando nos outros aquilo que precisava construir em mim.
Desde então compreendi que a verdadeira liberdade não está em escolher sem limites, mas em assumir, com coragem, a prisão inevitável de cada escolha.
Porque, no fim, somos livres para decidir. E responsáveis por habitar o mundo que cada decisão constrói.
JANETE GARNONE é pedagoga, psicanalista, licencianda em Filosofia, coralista e cronista.
Apaixonada pela subjetividade humana, transforma reflexões cotidianas em palavras sensíveis e intencionais
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