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Licka Biazin cita Bauman para provocar: ‘moderno é se mostrar feliz’


A angústia de poder ser tudo

O sociólogo e filósofo Zygmunt Bauman descreveu a sociedade contemporânea por meio da ideia de modernidade líquida. Para ele, vivemos em uma época marcada pela instabilidade. Relacionamentos, carreiras, identidades e valores tornaram-se cada vez mais flexíveis e transitórios. Nada parece durar por muito tempo. Tudo pode ser substituído, atualizado ou descartado.

A promessa é de liberdade. A consequência, muitas vezes, é angústia.

Se em outras épocas a vida era construída sobre estruturas relativamente estáveis, hoje o indivíduo é constantemente pressionado a se reinventar. Não basta existir. É preciso melhorar continuamente. Ter um corpo melhor, uma carreira melhor, uma rotina mais produtiva, filhos mais bem-sucedidos, um relacionamento mais feliz e uma vida mais interessante do que a de ontem.

As redes sociais ampliaram esse fenômeno de forma inédita. Nunca foi tão fácil observar a vida dos outros. Ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil escapar da comparação. O feed apresenta uma sucessão de viagens perfeitas, corpos perfeitos, casas perfeitas, famílias perfeitas e rotinas aparentemente impecáveis. Ainda que racionalmente saibamos que se trata de recortes cuidadosamente selecionados, emocionalmente a comparação continua acontecendo.

O resultado é uma sensação constante de insuficiência. Há sempre alguém mais bonito, mais produtivo, mais rico ou mais feliz. O ideal de perfeição torna-se inalcançável, mas continua sendo perseguido.

Sob a ótica da Psicanálise, esse cenário produz efeitos importantes. Desde Sigmund Freud, sabe-se que a constituição da identidade depende do olhar do outro. O reconhecimento é parte fundamental da experiência humana. O problema surge quando a aprovação externa passa a determinar o valor pessoal.

Em vez de viver experiências, muitas pessoas passam a organizá-las em função de como serão vistas. O restaurante precisa render uma foto. A viagem precisa gerar conteúdo. O treino precisa ser registrado. O relacionamento precisa parecer feliz. A maternidade e a paternidade precisam parecer perfeitas. Aos poucos, a vida corre o risco de se transformar em uma vitrine.

A lógica das redes sociais também favorece o imediatismo. Mensagens são respondidas instantaneamente. Vídeos duram poucos segundos. Compras chegam em poucas horas. O entretenimento está disponível a qualquer momento. A espera, que sempre fez parte da experiência humana, passa a ser percebida como um incômodo.

Do ponto de vista psíquico, essa dinâmica reduz a tolerância à frustração. Deseja-se satisfação imediata, respostas imediatas e reconhecimento imediato. Quando a realidade não acompanha esse ritmo, surgem sentimentos de ansiedade, irritação e vazio.

Não é por acaso que ansiedade, depressão e uso compulsivo de telas aparecem cada vez mais nas discussões sobre saúde mental. Evidentemente, esses fenômenos possuem múltiplas causas, mas o ambiente social descrito por Bauman contribui para um estado permanente de comparação, cobrança e aceleração.

Outro efeito frequente é a dificuldade de dizer “não”. Em uma cultura baseada na aprovação, muitas pessoas evitam estabelecer limites por medo de rejeição. Aceitam convites que não desejam, concordam com opiniões que não compartilham e assumem responsabilidades que não conseguem sustentar. A necessidade de pertencimento acaba se sobrepondo à autenticidade.

A Psicanálise entende que amadurecer implica reconhecer que não é possível agradar a todos. Toda escolha envolve perdas. Todo limite gera alguma insatisfação. E toda identidade exige a capacidade de sustentar diferenças.

Talvez uma das grandes contradições do nosso tempo seja esta: nunca tivemos tantas possibilidades. Podemos ser quase tudo. Podemos estar em todos os lugares. Podemos acompanhar a vida de milhares de pessoas em tempo real. Mas, justamente por isso, carregamos a sensação permanente de que estamos ficando para trás.

Bauman observou que a liberdade contemporânea veio acompanhada de uma responsabilidade inédita. Se antes os caminhos eram mais delimitados, hoje cada indivíduo se torna responsável por construir a própria trajetória. O fracasso deixa de ser percebido como consequência de circunstâncias e passa a ser interpretado como insuficiência pessoal.

Nesse contexto, a angústia não nasce da impossibilidade de escolher, mas do excesso de escolhas. Não nasce da falta de oportunidades, mas da pressão constante para aproveitá-las todas. Não nasce apenas da ausência, mas da sensação de que existe sempre uma versão melhor de nós mesmos esperando para ser alcançada.

Talvez a armadilha da modernidade líquida seja justamente essa: passamos tanto tempo tentando nos tornar alguém melhor que esquecemos de ser quem já somos. E, na busca incessante pela vida perfeita, acabamos adiando a única vida que realmente existe — a vida real.

Eliza (Licka) Biazin é formada em Recursos Humanos e cursa Psicanálise e Design Gráfico. Leitora apaixonada por fantasia e por investigação teórica, dedica-se à leitura de artigos científicos e aos estudos em Psicanálise.


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