
A busca de um candidato
para chamar de ‘seu’
Em cidade pequena, há muitas estações no ano. Tem a estação das chuvas, a do friozinho que chega sem avisar, a da quermesse da igreja… e tem também uma das mais aguardadas: a temporada de ter um candidato a deputado pra chamar de seu.
Ela começa discretamente. Primeiro surge um carro adesivado passando devagar pela praça, com um jingle que ninguém entende direito, mas que gruda na cabeça igual chiclete em sola de sapato.
Pouco depois, aparecem eles: os cabos eleitorais profissionais da pequena cidade. Aqueles que, a cada dois anos, descobrem um novo ‘amigo de longa data que por coincidência está concorrendo a deputado estadual ou federal.
“Esse aqui é meu candidato!”, dizem com convicção, como se estivessem apresentando um primo distante que cresceu junto, tomou café na cozinha e jogou bola na rua de terra.
O curioso é que, na eleição passada, o ‘meu candidato’ era outro. Mas política, em cidade pequena, tem uma lógica própria: amizade eleitoral dura exatamente até o resultado das urnas.
O cabo eleitoral raiz é uma figura interessante. Ele sabe tudo:
quem vai ganhar, quem vai perder, quem ‘vem forte’, quem ‘tem grupo’, quem ‘tem estrutura’, e principalmente quem ‘tá investindo’.
No começo da temporada, ele anda cauteloso. Observa. Escuta. Analisa o movimento no bar da esquina, na porta do mercado e no grupo de WhatsApp da família.
Mas quando escolhe o candidato… aí vira missão de vida.
De repente, o sujeito vira embaixador oficial do deputado na cidade.
Passa a falar o nome do candidato com uma intimidade impressionante:
“Ontem mesmo falei com ele.”
Ninguém pergunta quando foi, onde foi ou se foi por mensagem automática de campanha. O importante é a frase.
A cidade inteira também entra no clima.
Sempre tem alguém que diz: “Esse é forte, viu… já trouxe ambulância pra três cidades.”
Outro rebate: “Mas o meu que vai ganhar. Já tá com quinze prefeitos.”
E um terceiro conclui: “Esse aí é amigo do governador.”
É um verdadeiro campeonato de credenciais invisíveis.
Enquanto isso, os cabos eleitorais percorrem a cidade com uma dedicação admirável. Entregam santinhos na porta da padaria, colam adesivo no carro dos parentes e prometem obras que o próprio deputado provavelmente descobrirá depois que prometeu.
Na reta final da eleição, o entusiasmo atinge o auge.
Todo mundo garante que seu candidato vai ser o mais votado da cidade.
Mas aí chega o dia da apuração… e às vezes o ‘meu deputado’ descobre que teve 37 votos no município inteiro.
No dia seguinte, o cabo eleitoral some por uns dias.
É um período conhecido na Ciência Política interiorana como ‘ressaca democrática’.
Mas não se preocupe.
Porque em dois anos… abre-se novamente a temporada.
E como sempre, na pequena cidade brasileira, surgirá alguém batendo no peito com orgulho e dizendo: “Esse aqui é meu candidato a deputado.”
Mesmo que até ontem ele nem soubesse pronunciar o sobrenome do homem.
E assim segue o ciclo natural da política no interior: chuva, frio, quermesse… e um deputado novo pra chamar de seu.
RENATO VIOLARDI é advogado, servidor da Câmara Municipal de Cabreúva e ex-secretário de Cultura e Turismo do município