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As intertextualidades de Cristóvão Corrêia


A Terra de Caetano, esse errante navegante

Inauguro este espaço com a letra de ‘Terra’, de Caetano Veloso – ela própria um exemplo claro de intertextualidade, por conter referências e transcrição de outros textos. Além disso ela traz informações preciosas sobre o período da ditadura – os ‘anos de chumbo’ que, sob o olhar de Caetano, vão se derretendo sob a grandeza e beleza da natureza – mas sobretudo da ‘Terra’, conforme veremos nos comentários após a apreciação da letra, transcrita abaixo:

“Quando eu me encontrava preso na cela de uma cadeia 

Foi que eu vi pela primeira vez as tais fotografias 

Em que apareces inteira, porém lá não estavas nua, e sim coberta de nuvens Terra, terra, por mais distante o errante navegante, quem jamais te esqueceria

Ninguém supõe a morena dentro da estrela azulada 

Nas vertigens do cinema, mando um abraço pra ti

Pequenina como se eu fosse o saudoso poeta, e fostes a Paraíba

Terra, terra, por mais distante o errante navegante, quem jamais te esqueceria

Eu estou apaixonado por uma menina terra 

Signo de elemento terra, do mar se diz: terra à vista

Terra para o pé, firmeza, terra para a mão, carícia, outros astros lhe são guia

Terra, terra, por mais distante o errante navegante, quem jamais te esqueceria

Eu sou um leão de fogo, sem ti, me consumiria 

A mim mesmo eternamente e de nada valeria

Acontecer de eu ser gente, e gente é outra alegria, diferente das estrelas

Terra, terra, por mais distante o errante navegante, quem jamais te esqueceria

De onde nem tempo e nem espaço, que a força mande coragem 

Pra gente te dar carinho durante toda a viagem

Que realizas no nada, através do qual carregas o nome da tua carne

Terra, terra, por mais distante o errante navegante, quem jamais te esqueceria

Nas sacadas dos sobrados, da velha São Salvador, 

Há lembranças de donzelas do tempo do imperador

Tudo, tudo na Bahia faz a gente querer bem, a Bahia tem um jeito

Terra, terra, por mais distante o errante navegante, quem jamais te esqueceria”

‘Terra’ foi lançada por Caetano Veloso em 1978. A letra surgiu para o artista retratar a própria prisão sofrida em dezembro de 1968, época do terrível AI-5. Caetano e Gilberto Gil, parceiros de vida, também compartilharam a mesma ordem de prisão.

Foi atrás das grades que Caetano recebeu da então esposa, Dedé, um exemplar da revista ‘Manchete’ com fotos da Terra, feitas pelos astronautas da Missão Apolo 8.

Na primeira estrofe da música, Caetano revela que estava preso quando viu “pela primeira vez, as tais fotografias”.  O refrão contém uma abstração do autor, que consegue ‘viajar com os astronautas’, para demonstrar a distância que estava da Terra – mas sobretudo da terra-natal, sua Bahia de Todos os Santos. 

Estar preso era estar muito distante. Não obstante, permaneceu distante do Brasil, sua terra, durante o exílio, após a prisão, em julho de 1969. Assim como os navegantes na época dos descobrimentos, que desbravavam o mar, os astronautas navegavam no espaço. Por isso o “errante navegante, quem jamais te esqueceria”.

Na segunda estrofe, o autor adjetiva o planeta Terra de “estrela azulada” e faz referência à Bahia, chamando-a de “morena dentro da estrela azulada” refere-se às suas abstrações como “vertigens”, e de “cinema”, a cela.  Menciona novamente a Bahia, retratando-a como “pequenina” fazendo referência ao “saudoso poeta” Luiz Gonzaga e o baião ‘Paraíba Masculina’.

A terceira estrofe traz diversos trocadilhos com os sentidos do termo ‘terra’, inclusive como elemento, como lugar, como solo, como composto, como astro.

Na quarta estrofe, Caetano se intitula um “leão de fogo”, símbolo de coragem e força. Também, leão é o signo do zodíaco do autor. Naqueles versos, o compositor declara que não faz sentido ser gente sem a “terra”.

A coragem e a força do “leão de fogo” citadas na quarta estrofe são invocadas pelo autor na quinta estrofe, para dar carinho à “terra”. O compositor se refere ao metafísico como “de onde nem tempo, nem espaço”, chama a existência, classicamente, de “viagem”. Refere-se ao espaço sideral como “nada”, e apregoa metaforicamente que “terra” é o nome da “carne” da “terra”.

Na sexta e derradeira estrofe, Caetano homenageia o compositor baiano Dorival Caymmi, e, consequentemente, a Bahia, com a transcrição de um trecho da música “Você Já Foi à Bahia?”.

CRISTÓVÃO CORRÊIA é servidor público, professor de Redação, Literatura e Língua Portuguesa em cursinho pré-vestibular social, poeta e escritor. É autor de ‘Sinais de um Sonho’ (veja aqui).

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